Por que nunca me senti em casa?

Pessoas que mudaram minha vida sem perceber

junho 14, 2026

Se cada um fizer o mínimo…

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Nasci e passei boa parte da minha vida no interior, bem na divisa do Paraná com Santa Catarina nas cidades de União da Vitória (PR) e Porto União (SC). A divisa das duas cidades fica bem no meio da cidade, num trilho de trem. É possível transitar entre dois estados facilmente e na verdade é possível estar em dois estados ao mesmo tempo! Minha família morou sempre lá e foi onde eu cresci. Entretando sempre faltou algo, apesar de ser minha cidade natal nunca tive o sentimento de pertencimento…

Acho interessante contar que sou – com muito orgulho – filho de caminhoneiro. Por isso cresci viajando com meu pai para tudo o que é lugar, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e tantos outros lugares que me foram apresentados já muito novo. Dizem que não se torna caminhoneiro, se nasce. Eu vi meu pai tentar largar a profissão muitas vezes mas sempre voltava, acho que herdei esse sangue caminhoneiro mas segui por outro lado. Meu pai me aconselhou desde pequeno a nunca seguir a profissão porque ela pode ser muito ingrata e sofrida, assim o fiz. Mas nada me tira essa gana de querer viajar.

Voltando a União da Vitória, eu sempre olhei aquela cidade de uma forma diferente: eu sou uma pessoa progressista, inovadora e morar no interior pode ser bem frustrante porque o que não tem é progresso e inovação! Passam-se 10 anos e a cidade continua a mesma, as pessoas continuam as mesmas, tudo figurinha carimbada. Outro ponto é que no interior as pessoas se importam demais com a vida dos outros, tudo o que você faz tem alguém pra ficar fofocando sobre sua vida e eu sempre achei isso ridículo! Não que eu faça coisas reprováveis mas porque eu tenho aversão por fofocas e intriguinhas. Eu nunca me importei com a vida dos outros e não queria que se importassem com a minha, vai cada um cuidar do seu e me deixem em paz!

Por essas e outras, nunca pude chamar aquele lugar de lar, mesmo tentando muito. Eu precisava sair de lá, eu precisava achar o meu lugar no mundo. E assim o fiz.

No dia 3 de novembro de 2024 eu dei meu primeiro passo rumo a essa aventura, me mudei! Fui morar na cidade grande, na maior cidade de Santa Catarina: Joinville.

Me apaixonei imediatamente, era tudo o que sempre quis! Eu podia ser exatamente quem eu era sem medo de ser julgado. Eu encontrei meus grupos, minhas pessoas. Eu tinha minha privacidade e podia sair na rua sem ter que ficar pensando se ia esbarrar com um conhecido. Eu podia ir pra baladas e beber a noite toda sem ficar pensando em quem ia me julgar. Eu podia ir pra alguma praça aleatória e ficar lendo em paz. A cidade tinha progresso, tinha gente, tinha tudo o que eu queria… Mas mesmo assim eu sentia que faltava algo.

Então vieram as primeiras trocas culturais. No Rufino conheci meus primeiros amigos, e foram pessoas incríveis. Pessoas de todos os lugares do Brasil: do Sul, do Norte, do Nordeste e do Sudeste. Cada uma delas compartilhava algo comigo, e era incrível ouvi-las.

Naquele lugar não havia uma pessoa parecida comigo. O sotaque era diferente, a visão de mundo era diferente, as experiências eram diferentes. Havia uma amiga de quase 40 anos e outra de 18 andando lado a lado. E, mesmo cercado por gente tão diferente, eu me identificava muito mais com elas do que com grande parte das pessoas que conheci durante anos no interior.

E ali eu me senti — pela primeira vez — em casa.

Passei anos acreditando que estava procurando uma cidade para chamar de lar. Hoje acho que estava procurando pessoas.

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